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Crônicas

Escrevi as crônicas que apresento abaixo na disciplina da graduação “Projetos Integrados em Educação Matemática”, durante o desenvolvimento do trabalho A Importância da Filosofia nos Cursos de Formação de Professores e Pesquisadores de Matemática.

Aviso 1: as crônicas nada têm a ver com matemática, elas apenas refletem os pensamentos e angústias no desenvolvimento de um projeto de pesquisa.

Aviso 2: antes de cada crônica coloquei uma pequena explicação para situar mais ou menos o assunto, já que às escrevi sem o menor propósito de que alguém às entenda (depois de quase três anos… eu mesmo tive dificuldade de entender, hehe).

Crônica Primeira 08/08/07

Sobre as duas primeiras aulas, nas quais lemos e discutimos em classe os dois primeiros parágrafos dos textos “Meditação Primeira” e “Discurso do Método”, ambos de René Descartes.

Eis que se apresenta uma mente disposta. Pasmem!

Colega, observe o fenômeno que surge ao nosso lado: indignações alheias entristecem seus semblantes. Transcorridas algumas unidades na quarta dimensão física, torna-se visível a nebulosa nuvem pairando no ambiente. De algumas formas de arreganho espasmódico, vislumbra-se um feixe de luz. Colega, ajude a manter esta força.

Confirma-se minha impressão após dispersar-se. Surpresa? Só para o primeiro relato.

Evite argumentações improdutivas. Colega, ajude-me a manter a luz.

Silenciosamente, reflexões desorganizadas alongam duas rotações cósmicas, que repeliram naturalmente a nuvem.

Mentes vazias, percebe-se ausência de necessária talante coletiva.

Meditação primeira. De imediato, incoerências comuns surgem à imaginação. Não há a primeira, travo em inútil sutileza. Não se atenha. Compenetraste atração visual preocupa a compreensão ideal. Momento há de vir que reverta a eventualidade, evidentemente controvertendo a até então desconhecida teoria.

O conjunto adjacente… Oh, terrível engano! Da cimalha, são incapazes de penetrar a visão num vespeiro sequer. Abrangendo toda a amplidão, têm idéia clara e significativa, todavia divergentes. Torna-se um labirinto cognitivo.

No envolto, equivalente por algum sentido ao anterior, paira a dúvida. Dúvida! esta é a palavra. Tomados pelo escrúpulo já enraizado, adentram nas mais finas membranas celulares. Cuidado, tolo é aquele que duvida de tudo!

Cria-se relutância para acepção temática devido à discordância. Princípios, opiniões, não por fim haveria que os destruir, além de fora de propósito levante-se uma ciência de tal modo.

*

Igualdade. Certamente vai ao encontro de razão lógica, talvez lamentavelmente. Exprimem-se letárgicos testemunhos aleatoriamente. Incompreensões abusivas absolvem o leve material fluídico presente. As dúvidas tornam-se chalaças picantes por outrem.  A ponta de esperança sucumbe aos maus grados pretéritos. O feixe não mais brilha, e põe-se em questionamento sua temporária existência. Em que se encontra a coisa mais bem distribuída no mundo? Qual a razão do bom senso permitir tais exorbitâncias de atribuições? Que é bom senso?

Meditação segunda. Meditação terceira. Meditação quarta. Meditação quinta. Meditação sexta. Meditação sétima… Meditação n-ésima.

Conclusão primeira… Falha genética!

Faz-se mister estar incumbido de infalível veracidade conceitual, condição que vai de encontro ao emprego da abstração do material em certas descrições, aparente contradição. Impetuosamente aquele vocábulo retorna: dúvida!

O que é uma ciência?

Crônica Segunda (data?)

Foi escrita após a leitura do texto “Um espelho para o eu”, de César Ades, Revista de Etologia, 1998.

Nova fronteira. Uma grande equipe de estudiosos e colaboradores chegam à mim com o seguinte discurso:

– Pronome pessoal de primeira pessoa do singular, individualidade metafísica de uma pessoa. Um corpo de conhecimentos racionais (e não de conhecimentos revelados ou empíricos) em que se procura determinar as regras fundamentais do pensamento (aquelas de que vem decorrer o conjunto de princípios de qualquer ciência, e a certeza e evidência que neles reconhecemos), e que nos dá a chave do conhecimento do real, tal como este verdadeiramente é (em oposição à aparência).

Seguem o discurso:

– Tu és um ser considerado na sua individualidade física ou espiritual, portador de racionalidade, consciência de si, capacidade de agir conforme fins determinados e discernimento de valores.

– Obrigado, senhores. Então me respondam: têm os animais conhecimento de si próprios e consciência de si?

– Saber se os animais sentem e pensam como nós é uma das questões básicas colocadas desde os primórdios do interesse científico pelo comportamento animal… tabus behavioristas… segundo Griffin… Gardner… teoria da mente… posição darwiniana… posição cartesiana… imitação invisível… fenômeno Cooley… até que ponto é válido considerar o chimpanzé e outros primatas como espelhos possíveis para o eu humano.

*

Se os estudiosos permitirem, eu gostaria de fazer um desabafo em forma de crítica. Com prazer e respeito serei desmentido.

Primeiramente atento à diferença entre a pergunta e as primeiras palavras da resposta. Saber se os animais têm consciência de si não é o mesmo que saber se eles sentem e pensam como nós.

Uma vez que os animais não são iguais aos seres humanos, não há que se estudar o comportamento daqueles pelas mesmas teorias psicológicas destes. Teria, necessariamente, que se desenvolverem novas teorias tão distintas das da psicologia humana quanto os animais são distintos de nós.

Acredito que, para os pesquisadores aceitarem esta idéia, falta-lhes um elemento essencial. Justificando por que considero os animais e os humanos seres diferentes, apresentarei uma vaguíssima idéia do que é o elemento ignorado.

Sem discutir o mérito da questão, o que demandaria um estudo aprofundado de toda uma ciência, considerarei a existência de um princípio inteligente universal e do espírito. O princípio inteligente é um elemento universal do qual provém toda forma de inteligência que conhecemos, e espírito é a palavra empregada para designar a individualidade de uma forma de inteligência (ou simplesmente a alma do homem, dependendo do sentido dado a esta palavra), a que chamamos de o eu (os animais não têm espírito no sentido mais completo da palavra).

Os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, que evidencia que há neles um princípio independente da matéria.

Conclui-se daí que a inteligência do homem e dos animais vêm do mesmo princípio inteligente, mas no homem ela recebeu uma elaboração que o eleva acima do animal e de forma alguma o princípio inteligente de um animal habitará um corpo humano. A explicação disto está nos processos evolutivos. Os animais não têm consciência de si e, de acordo com Gabriel Delane, há neles uma espécie de embrião das emoções, que varia de acordo com a espécie, pois cada espécie reflete um nível de evolução. Esse “embrião” se desenvolve à medida que o princípio inteligente evolui, passando a habitar espécies mais adiantadas. Os animais seguem a lei evolutiva e, dada a pluralidade dos mundos, habitam os planetas segundo seus graus evolutivos.

É nos seres inferiores que o princípio inteligente se elabora , individualiza-se pouco a pouco e ensaia para a vida. É, de algum modo, um trabalho preparatório, como a germinação, em que o princípio inteligente sofre uma transformação e torna-se espírito. É então que começa o período da humanização e com ela a consciência de seu futuro, a distinção entre o bem e o mal e a responsabilidade de seus atos. Pouco antes desta transformação o princípio inteligente habitava, como animal, um mundo superior. Após, porém, ele habita um mundo primitivo como espírito.

“O espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, movimenta-se no animal e desperta no homem”. Esta frase dá uma idéia da evolução do princípio inteligente, até atingir a condição de ser consciente. Esse princípio passará por incontáveis modificações, que não se dão através de saltos, até que passa a atingir a condição de espírito.

Crônica Terceira (data?)

Procurando o tema do projeto, esta crônica é autoexplicativa.

Antes de dar início à elaboração de um projeto de pesquisa, o pesquisador precisa ter em vista, ainda que de forma ampla, um assunto ou tema de seu interesse. É preferível que esse tema tenha relação com suas experiências e seus conhecimentos prévios e instigue a sua curiosidade. Pode ser algo que o perturbe, um problema que necessite ser resolvido ou, pelo menos, mais bem compreendido.

Como este era o tema da última aula, todos deveriam ter pelo menos pensado num assunto para futura elaboração de projeto de pesquisa. Senti grandes dificuldades para tal. Minha pergunta era como pensar num assunto para projeto de pesquisa sem antes pesquisar sobre vários assuntos. Não sou tão esforçado quanto gostaria de ser, então não pesquisei os possíveis assuntos para um projeto em educação matemática. Não obstante nenhuma idéia surgiu à minha mente. Para a sorte de todos, meus companheiros de trabalho não cometeram o mesmo erro.

Iniciada a aula, os alunos começaram a expor suas idéias para o projeto. Não demorou para eu discordar do pessoal. Sinto-me incomodado quando fazem muitas afirmações “perigosas” sem prévia meditação ou estudo. Apesar de não gostar disso, não vale de nada criticá-los sem fazer algo para melhorar as discussões em aula. Além disso, não estou com vontade de lembrar de detalhes que me incomodam.

O interessante é que percebi que isso era exatamente o que eu precisava: escutar um pouco as idéias dos outros para me inspirarem alguma idéia e que detectasse algum problema para, quem sabe, delimitar meu projeto. Surgiu a vontade de mostrar aos demais a importância de se questionarem sobre seus próprios pensamentos antes de os tomarem como verdade. Mas como?

Foi neste momento que surgiu a idéia de pesquisar a “importância da filosofia na formação de professores”. Sendo a filosofia uma disciplina, ou uma área de estudos, que envolve a investigação, análise, discussão, formação e reflexão de idéias (ou visões de mundo) em uma situação geral, abstrata ou fundamental, acredito que o estudo desta poderia ajudar os professores em formação a entenderem melhor a essência do que estudam, a lerem sem colocar suas próprias opiniões sobre o que está escrito, a aprimorarem a discussão em grupo, dentre outros. Gostaria de atentar que o fato de eu ter esta idéia para projeto é por que eu mesmo preciso entender tais importâncias.

Ouço falar tanto de angústias, mas a que mais me incomoda no momento é que estou sendo cobrado para escrever sobre algo que ainda não foi devidamente pesquisado. Não quero delimitar exatamente o problema de meu projeto antes de ter maiores detalhes sobre como será desenvolvido. Mudo muito as minhas idéias, vontades e interesses, não quero ter que justificar mais tarde os motivos pelos quais mudaria o tema de meu projeto de pesquisa. Por mais que todos digam que é necessário “mapear um caminho a ser seguido durante o percurso investigativo”, eu trabalho diferente, e elaboro meu projeto do jeito que me for mais eficiente.

Crônica Quarta 21/09/07

Demorei um pouco para progredir nas pesquisas para o projeto e assim atrasei um pouco as crônicas, e esta relata os processos da pesquisa.

Considero improvável a execução pontual de uma ação periódica, porém não mais meritória que uma astuta reparação do desacordo temporal.

Havia algumas semanas que o sol não reaparecia, ventos turbulentos perturbavam-me os sentidos, não havia o que comer. Não apenas estas circunstâncias inibiram minha aplicação de forças mentais e físicas na execução das obras, derribando sua periodicidade.

Foi uma época difícil. Os bravos condiscípulos enfrentavam a situação sem preocupações, pois sabiam haveria um período de calmaria. Todavia, apenas para mim, aquele período não foi tão reconfortante. Precisei ir atrás de alimento e correr, correr para bem longe, tão distante dos condiscípulos que encontrei uma “região de inquérito” ignota por eles. Havia diversos chafarizes jorrando uma penumbra fluídica de difícil penetração. Encontrei lindas fontes, e identifiquei-me com algumas escondidas numa pequena caverna.

Um ser bicudo foi a facção que me proporcionou uma pequena esperança. Ele sugeriu uma maneira eficaz de conseguir alimento. Meditei sobre a sugestão, organizei as idéias, sistematizei, planejei, idealizei, pesquisei e até ignorei algumas informações.

Foi fadigoso, mas retornei coberto de júbilo por ter uma possível solução para épocas como aquela e poder mostrá-la aos conterrâneos. Bastou uma breve demonstração da “novidade” aos condiscípulos para um sujeito característico alertar-me que aquilo era, na verdade, simplesmente a semente de uma espécie frutífera rara, que até então eu desconhecia.

Refleti sobre aquela semente. Creio que o futuro fruto saciará minha fome. Se esta for a solução, nada mais justo que dar um nome ao fruto. Batizo-o de Projeto de Pesquisa.

Crônica Quinta 04/11/07

Mexendo com filosofia o pensamento voa, posso dizer que esta crônica foi feita com tema livre, escreva o que está pensando!

Outorgaram-me a consagração da patenteação deste sistema mnemônico com o escopo de arrolar algum acontecimento.

De imediato sinto-me importunado com interrogativas: Para que? Para quem? Como?

Ponho-me a pensar.

Analisando o motivo, deparo-me com a dificuldade de encontrar a causa primária do legado, pois esta investigação é inapropriada sem uma penetração nos limites da jornada filosófica interior. Quanto ao destinatário, se não houvesse esta orientação, ficaria a mercê das diferenças dos leitores. Caso contrário, como se trataria de uma obra para determinados apreciadores humanos, demandaria de uma posição psicologista criteriosa condizente às condições exigidas, de uma pedagogia circunspeta e de uma noção sociológica e ética em concórdia. A maneira abrange muitas possibilidades. Se manuscrita, há que se entenda o mecanismo complexo constituinte dos materiais usados, para transferência exata das substâncias do instrumento ao documento. Isto exigiria um entendimento avançado de física, química e associados, pois aquelas moléculas não viajam livremente a nosso bel prazer. Se computacional, as dificuldades aumentariam talvez incontrolavelmente. Além disso, todas estas relutâncias precedem à tematização.

A natural conclusão é a minha incapacidade de execução do presente trabalho, embora isto me pareça estranho diante das circunstâncias.

Frente à contradição explanada, angustio-me com as delimitações científicas. Afinal, quem diabos determinaram-nas? Como separaram o inseparável?

Tudo está associado à matéria. Estados diferentes da matéria determinam diferentes resultados. Cada objeto palpável por nós é um aglomerado de matéria, o nosso corpo é constituído de matéria, os gases são formados por matéria, assim como inúmeras substâncias ainda imponderáveis. O nosso pensamento está associado à matéria, pois que agimos pelo comando daquele e sobre esta. O pensamento age no cérebro como energia que movimenta suas moléculas, que por sua vez transmite a informação à todo o organismo do corpo humano por vibrações das moléculas que constituem a matéria do corpo. O pensamento também agita uma matéria, ainda desconhecida, espalhada no espaço, mas que viaja em forma de energia. Desta maneira o pensamento humano pode exercer força, através de energia, sobre qualquer coisa constituinte da mesma forma material movimentada pelo mesmo. Contestáveis são essas formas de energia, todavia unicamente por um equívoco do ponto de vista lógico. Ora, energia nada mais é do que uma forma de matéria em movimento.

O problema, então, é saber o que é matéria. O mais aceitável deste ponto de vista é admitir axiomaticamente um princípio material único, presente em todo o espaço universal, mesmo sem conhecermos sua natureza íntima. Desta maneira, tudo que é material nada mais é que transformação deste princípio material.

O estudo desta especulação diz respeito à todas as ciências citadas acima e muitas outras. Repito: como às separaram?

A questão do pensamento, que está associado à mente e à inteligência, ficou pendente nas considerações acima, pois que este não é atributo da matéria. Assim, pode-se adotar o seguinte conceito primitivo: toda forma de inteligência é transformação de um único princípio inteligente. Esta transformação se dá basicamente da seguinte maneira:

O princípio inteligente prende-se numa determinada forma material apropriada. A partir daí começa um desenvolvimento do princípio inteligente, agora individualizado, juntamente com a matéria. Esta junção determina um organismo primitivo, ainda desconhecido, que em seu desenvolvimento atravessa por diversas etapas: desde protozoário, vegetal, animal, humano, até transformar-se num indivíduo superior também desconhecido por nós. A forma inteligente se transforma por todas as etapas em constante relacionamento com a matéria, porém esta sempre se renova.

Adotando o axioma de que todo efeito inteligente vem de uma causa inteligente, chegamos à conclusão que o princípio inteligente é efeito de alguma causa inteligente. As pessoas costumam chamar esta causa, mesmo que desconhecida, de Deus.

Uma semente possui todas as propriedades necessárias para que, juntamente com os fatores externos, se produza uma árvore, o todo. Imaginando que cada célula do nosso corpo possui toda constituição dele todo, ou seja, cada célula é um retrato do todo, podemos analogicamente pensar que cada indivíduo é um retrato do todo e que cada indivíduo possui todas as propriedades necessárias para que, juntamente com os fatores externos (a matéria), retrate-se Deus.


Estas considerações permitem que tenhamos uma pequenina idéia do significado das palavras do grande educador indiano Sathya Sai Baba: “Vós sois deuses!”.

O todo é estudado separadamente, retornando à minha angústia. Mas as dificuldades apresentadas para se efetuar esta tarefa me levam a concluir que estou errado, pois que ela foi feita. Repare que o tema inicial é totalmente irrelevante, pois qualquer início seria direcionado àquelas reflexões, que constituem uma crônica dos meus pensamentos.

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